Um estudo com 27 vacas leiteiras mostra que a substituição de 25% da silagem de milho por silagem de triticale manteve a ingestão e a produção de leite, reduziu a contagem de células somáticas e aumentou a proporção de ácidos gordos insaturados no leite. A análise do microbioma e dos metabolitos do rúmen ajuda a explicar os resultados.
A silagem de triticale pode ser uma alternativa interessante para diversificar a base forrageira das explorações leiteiras e, simultaneamente, melhorar alguns indicadores de qualidade do leite. É o que sugere um estudo publicado no Journal of Dairy Science, no qual a substituição de 25% da silagem de milho por silagem de triticale não prejudicou a ingestão de matéria seca nem a produção de leite, mas reduziu a contagem de células somáticas e alterou favoravelmente o perfil de ácidos gordos do leite.
O trabalho foi realizado com 27 vacas leiteiras em meio da lactação, submetidas a três dietas: uma dieta controlo à base de silagem de milho e duas dietas em que 25% ou 50% da silagem de milho, na matéria seca da fração forrageira, foi substituída por silagem de triticale.
A principal conclusão dos investigadores é que 25% de substituição parece representar um nível viável, permitindo diversificar a produção de forragem sem comprometer o desempenho das vacas e obtendo simultaneamente melhorias em vários indicadores da qualidade do leite.
25% de substituição não penalizou a produção
O estudo comparou três dietas:
- 0% de triticale: 64% de silagem de milho na matéria seca da dieta;
- 25% de substituição: 48% de silagem de milho + 16% de silagem de triticale;
- 50% de substituição: 32% de silagem de milho + 32% de silagem de triticale.
As dietas continham ainda 12,8% de luzerna, 2,77% de caroço de algodão e 20,5% de concentrado.
A ingestão de matéria seca foi praticamente idêntica entre a dieta controlo e a dieta com 25% de triticale: 20,4 e 20,3 kg de matéria seca/vaca/dia, respetivamente.
O mesmo aconteceu com a produção de leite, que foi de 25,0 kg/dia na dieta controlo e 25,1 kg/dia na dieta com 25% de triticale.
Já a substituição de 50% teve um efeito negativo. A ingestão caiu para 18,6 kg de matéria seca/dia e a produção de leite para 22,0 kg/dia.
Assim, o estudo mostra que mais triticale nem sempre significa melhores resultados. A dose parece ser determinante.
Por que razão 50% prejudicou o desempenho?
A composição das duas silagens ajuda a explicar esta diferença.
Em comparação com a silagem de milho, a silagem de triticale utilizada no ensaio apresentou:
- mais proteína bruta: 11,2% vs. 7,30%;
- mais NDF: 61,0% vs. 53,2%;
- mais ADF: 37,1% vs. 29,7%;
- mais lenhina: 9,56% vs. 5,14%;
- menos de metade do amido: 11,7% vs. 25,3%.
Consequentemente, à medida que aumentava a proporção de triticale, a dieta ficava mais fibrosa e menos rica em amido e energia.
Segundo os investigadores, a maior concentração de fibra pode aumentar o enchimento ruminal e limitar a ingestão, enquanto a redução do amido diminui a densidade energética da dieta. Estes fatores ajudam a explicar a redução da ingestão de matéria seca e da produção de leite observada com 50% de substituição.
O leite ficou mais rico em ácidos gordos insaturados
Uma das principais vantagens observadas com a inclusão do triticale foi a alteração do perfil de ácidos gordos do leite.
A silagem de triticale continha mais ácido linoleico (LA) e ácido α-linolénico (ALA) do que a silagem de milho. O primeiro é um ácido gordo polinsaturado da família ómega-6 e o segundo pertence à família ómega-3.
Nos animais alimentados com triticale, aumentou a proporção de ácido oleico (OA) na gordura do leite. Com 50% de substituição aumentaram também de forma mais marcada o ácido linoleico e o ácido α-linolénico.
Considerando a totalidade dos ácidos gordos, a dieta com 50% de triticale reduziu em cerca de 4% a proporção de ácidos gordos saturados e aumentou em cerca de 12% a proporção de insaturados e de monoinsaturados, reduzindo a relação entre saturados e insaturados.
Mesmo a dieta com 25% de substituição apresentou uma tendência para um perfil mais favorável: a proporção total de ácidos gordos insaturados aumentou numericamente cerca de 8%, enquanto a relação entre saturados e insaturados diminuiu cerca de 10%, embora estas diferenças não tenham atingido significância estatística.
Menor contagem de células somáticas
Outro resultado relevante foi a redução da contagem de células somáticas (CCS).
A dieta controlo apresentou uma CCS de aproximadamente 1,12 × 10³ células/mL, enquanto os valores foram de 1,04 × 10³ células/mL com 25% de triticale e 1,07 × 10³ células/mL com 50%.
Embora a diferença absoluta seja relativamente pequena, a redução foi estatisticamente significativa.
A CCS é um dos principais indicadores utilizados para acompanhar a saúde do úbere e a qualidade higiénico-sanitária do leite. Uma contagem mais baixa está geralmente associada a menor inflamação intramamária.
Os autores consideram que a alteração da fermentação ruminal e do ambiente metabólico poderá contribuir para este resultado, mas sublinham que o mecanismo não foi demonstrado diretamente no estudo.
Mais proteína, mas só com 50% houve perda de produção
A concentração de proteína do leite apresentou uma tendência de aumento à medida que aumentava a inclusão de triticale:
- 3,48% na dieta controlo;
- 3,55% com 25% de triticale;
- 3,63% com 50%.
No entanto, é importante distinguir concentração de produção total de proteína.
Com 50% de substituição, a produção de leite diminuiu e, consequentemente, a produção diária de proteína também caiu para 0,796 kg/dia, contra 0,872 kg/dia na dieta controlo e 0,890 kg/dia com 25% de triticale.
Isto significa que a melhoria da concentração de proteína no leite não compensou a redução do volume de leite quando a inclusão de triticale foi demasiado elevada.
O que aconteceu no rúmen?
Para perceber como a alteração da forragem poderia modificar a composição do leite, os investigadores foram além das medições tradicionais.
Analisaram simultaneamente:
- a fermentação ruminal;
- o perfil de ácidos gordos no rúmen;
- a comunidade bacteriana;
- os metabolitos presentes no líquido ruminal;
- o perfil de ácidos gordos do leite.
É esta abordagem integrada que está na origem do termo “multi-ómica” utilizado no título do artigo.
Os resultados mostram que a inclusão de triticale alterou a comunidade microbiana do rúmen. Entre as alterações mais relevantes esteve o aumento de bactérias dos grupos Butyrivibrio_A e Ruminococcus_E, associados ao metabolismo da fibra e à transformação dos ácidos gordos.
Também foram observadas alterações em Prevotella, um grupo bacteriano importante no metabolismo dos nutrientes no rúmen.
Mais ácido α-linolénico e intermediários da bio-hidrogenação
A alteração da dieta refletiu-se igualmente no perfil de ácidos gordos do líquido ruminal.
Com 50% de substituição, o ácido α-linolénico aumentou cerca de 35%, enquanto o ácido linoleico aumentou aproximadamente 44%. Também aumentaram vários intermediários da bio-hidrogenação dos ácidos gordos no rúmen.
A bio-hidrogenação é o conjunto de transformações através das quais os microrganismos ruminais modificam os ácidos gordos insaturados provenientes da dieta antes de estes chegarem ao intestino.
Estas transformações são importantes porque determinam, em parte, quais os ácidos gordos que acabam por ser absorvidos e posteriormente incorporados na gordura do leite.
Os investigadores encontraram, assim, uma relação entre a maior disponibilidade de ácidos gordos insaturados provenientes do triticale, as alterações da microbiota ruminal e a composição final da gordura do leite.
475 metabolitos analisados
A análise metabolómica identificou 475 metabolitos no líquido ruminal.
As vias metabólicas que mais se diferenciaram entre as dietas estavam relacionadas com o metabolismo do ácido linoleico, digestão e absorção de proteínas, biossíntese de aminoácidos e metabolismo da tirosina e do triptofano. O metabolismo do ácido α-linolénico também apresentou diferenças significativas.
Com 25% de triticale, foram identificados 27 metabolitos aumentados e cinco diminuídos relativamente à dieta controlo.
Com 50%, foram observados 33 metabolitos aumentados e seis diminuídos.
Entre os metabolitos que aumentaram encontravam-se compostos relacionados com o metabolismo dos ácidos gordos e aminoácidos.
Microbioma e metabolitos podem explicar a alteração da gordura do leite
A análise de correlação permitiu estabelecer relações entre algumas bactérias ruminais e os metabolitos envolvidos no metabolismo dos ácidos gordos.
Os investigadores associaram, em particular, Butyrivibrio_A e Ruminococcus_E a produtos de oxidação do ácido linoleico e a derivados de aminoácidos.
A hipótese proposta é que a alteração da comunidade microbiana e do conjunto de metabolitos disponíveis no rúmen modifica a transformação dos ácidos gordos provenientes da dieta. Parte destes compostos pode escapar à bio-hidrogenação completa e chegar ao intestino, contribuindo depois para a maior proporção de ácidos gordos insaturados observada no leite.
Trata-se, contudo, de uma associação, e não de uma demonstração causal. Os próprios resultados não permitem afirmar que uma determinada bactéria seja isoladamente responsável pela melhoria do perfil lipídico do leite.
Uma estratégia para diversificar a produção de forragem
Para além da qualidade do leite, os autores destacam uma vantagem agronómica do triticale de inverno.
O estudo foi realizado em Xinjiang, na China, uma região onde a utilização de uma cultura de inverno pode permitir aproveitar a terra entre campanhas de milho e reduzir a exposição do solo à erosão provocada pelo vento durante o período de inverno.
O triticale de inverno é um híbrido de trigo e centeio e apresenta boa adaptação a ambientes frios e semiáridos. Pode ser instalado depois da colheita do milho, permitindo diversificar a produção de forragem.
Esta componente é particularmente interessante do ponto de vista da resiliência dos sistemas forrageiros: em vez de depender exclusivamente da silagem de milho, a exploração pode integrar uma cultura de inverno, aumentando a diversidade da base alimentar.
25% parece ser o ponto de equilíbrio
O resultado mais importante para o produtor é provavelmente este: 25% de substituição funcionou, 50% já não.
Com 25% de triticale, as vacas mantiveram:
- a ingestão de matéria seca;
- a produção de leite;
- a produção de leite corrigida para energia;
- a eficiência alimentar.
Ao mesmo tempo, apresentaram menor CCS e uma tendência para um perfil de gordura do leite mais rico em ácidos gordos insaturados.
Com 50%, a situação mudou: a ingestão caiu 1,8 kg de matéria seca/dia em relação à dieta controlo e a produção de leite diminuiu 3,0 kg/dia, enquanto a produção de leite corrigida para energia caiu 2,9 kg/dia.
Os autores recomendam, por isso, 25% de substituição da silagem de milho por silagem de triticale, quando o objetivo é melhorar indicadores de qualidade do leite sem comprometer o desempenho das vacas.
O que significa para as explorações leiteiras?
O estudo não permite concluir que a silagem de triticale deva substituir sistematicamente a silagem de milho em todas as explorações. A resposta dependerá da qualidade das silagens, do estádio de maturação, da composição da restante dieta, da disponibilidade de amido e fibra e das características dos animais.
É também importante notar que o ensaio foi realizado com 27 vacas em meio da lactação, numa região específica e com uma determinada qualidade de silagem de triticale. Os resultados não devem, por isso, ser extrapolados diretamente para qualquer sistema de produção.
Ainda assim, o trabalho apresenta uma indicação prática interessante: uma substituição moderada da silagem de milho por triticale pode permitir diversificar a produção de forragem e melhorar determinados parâmetros do leite, sem penalizar a produção.
Além disso, a utilização de uma cultura de inverno poderá oferecer benefícios agronómicos em determinadas regiões, tornando a estratégia particularmente interessante onde seja possível integrar o triticale na rotação das culturas.
Conclusão
A substituição de 25% da silagem de milho por silagem de triticale manteve a ingestão de matéria seca e a produção de leite, ao mesmo tempo que reduziu a contagem de células somáticas e melhorou o perfil de ácidos gordos da gordura do leite.
A análise integrada do microbioma e do metaboloma ruminal mostrou que a alteração da forragem modifica a comunidade microbiana e as vias metabólicas envolvidas no processamento dos ácidos gordos, ajudando a explicar as alterações observadas no leite.
Já a substituição de 50% foi excessiva nas condições do estudo, reduzindo a ingestão e a produção de leite.
O trabalho aponta, assim, para o triticale de inverno como uma opção interessante para diversificar as fontes de forragem, com 25% de substituição da silagem de milho a apresentar o melhor equilíbrio entre desempenho produtivo e qualidade do leite.
Fonte
Niu, Y., Wang, C., Nie, C., Wu, Y., Huang, R. & Zhang, W. (2026). Integrated multiomics reveals that replacing corn silage with triticale silage improves milk quality via rumen microbiome-metabolome crosstalk in dairy cows. Journal of Dairy Science, 109(8), 8255–8272. DOI: 10.3168/jds.2025-28155. O artigo está disponível em acesso aberto.
Artigo original: Journal of Dairy Science – artigo completo






