Estudo realizado na Suécia mostra que a produção de leite começa a diminuir quando as temperaturas máximas rondam os 21 °C durante vários dias. Vacas Holstein e animais de maior produção foram os mais sensíveis ao stress térmico.
O stress térmico pode começar a afetar a produção de leite a temperaturas mais baixas do que habitualmente se considera, mesmo em regiões de clima temperado. É a principal conclusão de um estudo realizado na Suécia, que analisou mais de 907 mil registos diários de produção de leite de vacas Holstein, Swedish Red e Jersey.
Publicado no Journal of Dairy Science, o trabalho procurou identificar a partir de que temperatura o calor começa a provocar perdas de produção e quais os animais mais vulneráveis. Os resultados apontam para um limiar de aproximadamente 21 °C de temperatura máxima média durante cinco dias, abaixo do qual não foram observadas reduções sistemáticas da produção associadas ao aumento da temperatura. A partir desse ponto, a produção começou a diminuir.
O resultado é particularmente relevante porque a investigação foi realizada na Suécia, um país de clima temperado onde, tradicionalmente, o stress térmico tem recebido menos atenção do que em regiões mais quentes. Os autores alertam, contudo, que o aumento da frequência e intensidade dos episódios de calor está a tornar este problema cada vez mais relevante também nas regiões temperadas.
Mais de 900 mil registos de produção
A investigação utilizou dados provenientes de 10 explorações leiteiras no sul da Suécia, integradas na infraestrutura de recolha de dados Gigacow. Foram analisadas 907.403 observações diárias de produção de leite, correspondentes a 1.056 vacas Holstein, 566 Swedish Red e 56 Jersey. Os animais eram vacas multíparas e os dados foram obtidos através de sistemas de ordenha robotizada.
Em vez de simplesmente comparar a produção entre dias quentes e frios, os investigadores estimaram primeiro a curva de lactação esperada para cada vaca. Depois, compararam essa produção esperada com a produção efetivamente registada.
Esta metodologia permitiu distinguir melhor uma redução provocada pelo calor de uma alteração normal da produção ao longo da lactação. A diferença entre a produção observada e a produção esperada foi utilizada como indicador da resposta da vaca às perturbações ambientais, incluindo o stress térmico.
O ponto crítico surgiu aos 21 °C
Um dos resultados mais relevantes foi a identificação de um ponto de inflexão próximo dos 21 °C para as três raças estudadas.
É importante sublinhar que este valor não significa que uma vaca entre em stress térmico assim que a temperatura do ar atinge 21 °C num determinado momento. O estudo avaliou o efeito da média das temperaturas máximas ao longo de cinco dias. Foi quando esta média começou a ultrapassar aproximadamente 21 °C que a produção diária de leite começou a apresentar uma tendência descendente.
Os investigadores consideram que esta abordagem permite identificar de forma mais precisa o início do efeito do calor sobre a produção, em vez de recorrer apenas a um valor fixo de índice temperatura-humidade (THI).
A conclusão é especialmente relevante para sistemas leiteiros situados em regiões onde os episódios de calor não são extremos, mas podem prolongar-se durante vários dias.
Holstein foram as mais sensíveis
As diferenças entre raças também foram evidentes.
As vacas Holstein apresentaram maior sensibilidade ao calor, enquanto as Jersey foram as menos afetadas. A raça Swedish Red apresentou uma resposta intermédia. O estudo confirma, assim, que a capacidade de tolerar temperaturas elevadas não é igual entre grupos genéticos.
A maior susceptibilidade das vacas Holstein é particularmente importante porque esta raça é predominante em muitos sistemas leiteiros intensivos e apresenta, em geral, elevados níveis de produção.
Os resultados sugerem que a seleção e a gestão da resistência ao stress térmico poderão assumir uma importância crescente à medida que os períodos quentes se tornam mais frequentes.
As vacas de maior produção foram mais afetadas
Outro resultado importante foi a relação entre nível produtivo e sensibilidade ao calor.
As vacas de maior produção foram mais afetadas pelas temperaturas elevadas. O estudo também identificou diferenças relacionadas com a fase da lactação e o número de lactações: as vacas em meia lactação e as que se encontravam na segunda e terceira lactação apresentaram maior sensibilidade ao aumento da temperatura.
Este resultado reforça a necessidade de evitar uma abordagem uniforme ao stress térmico. Dentro da mesma exploração, diferentes animais podem apresentar necessidades diferentes de proteção contra o calor, dependendo da raça, produção, fase da lactação e número de partos.
Um alerta para os sistemas leiteiros europeus
Para os produtores, a principal mensagem do estudo é que não é necessário esperar por temperaturas extremas para começar a atuar.
Se períodos prolongados com temperaturas máximas na ordem dos 21 °C já podem estar associados ao início de perdas de produção em vacas leiteiras, os sistemas de gestão do stress térmico devem considerar não apenas as ondas de calor mais severas, mas também períodos mais moderados e prolongados de temperaturas elevadas.
Os autores salientam que os resultados são particularmente importantes perante as alterações climáticas, que estão a aumentar a frequência, intensidade e duração dos períodos quentes. O trabalho poderá também contribuir para futuras investigações sobre a base genética da resiliência ao stress térmico.
Para Portugal, onde os episódios de calor podem atingir temperaturas muito superiores às observadas neste estudo, a questão assume uma importância ainda maior. A investigação sueca não permite estabelecer diretamente um limiar de 21 °C para as explorações portuguesas, uma vez que a resposta ao calor depende das condições ambientais, humidade, ventilação, adaptação dos animais e sistema de produção. No entanto, mostra que as perdas de produção podem começar antes de se atingirem temperaturas que tradicionalmente seriam consideradas extremas.
Fonte
Dominguez-Castaño, P., Ask-Gullstrand, P., Svensson, J. et al. Onset of heat stress and effects of warm temperature on daily milk yield in Swedish dairy cattle. Journal of Dairy Science, 109(8), 8953–8967, 2026. DOI: 10.3168/jds.2025-28225. O artigo é de acesso aberto.
Artigo original: Journal of Dairy Science – artigo completo






