Estudo com mais de 100 mil registos de vacas leiteiras mostra que a herdabilidade da produção de leite aumenta significativamente com a proporção de concentrado na dieta. Os resultados reforçam a importância de considerar o ambiente alimentar na avaliação genética.
O potencial genético de uma vaca leiteira não se expressa da mesma forma em todas as condições de alimentação. É o que demonstra um estudo realizado por investigadores da Wageningen University & Research, nos Países Baixos, que analisou a interação entre genética e alimentação em quase mil explorações leiteiras.
Os investigadores verificaram que a herdabilidade da produção de leite aumentou de 0,17 para 0,54 quando a proporção de concentrado na matéria seca da dieta passou de 13% para 43%.
Isto significa que, em dietas com maior disponibilidade de concentrado, uma proporção maior da variação observada na produção de leite pode ser atribuída a diferenças genéticas entre os animais.
O estudo, publicado no Journal of Dairy Science, procurou ainda perceber se a alteração das condições alimentares provocava uma mudança no ranking dos animais — isto é, se uma vaca geneticamente superior num determinado sistema poderia deixar de o ser noutro.
A resposta foi, na maioria dos casos, não. Os investigadores encontraram sobretudo um efeito de escala, com aumento da expressão da variância genética, mas pouca evidência de verdadeiro “re-ranking” dos animais entre ambientes alimentares.
Mais de 100 mil registos analisados
O estudo utilizou dados de 101.979 registos de primeira lactação, correspondentes a vacas provenientes de 973 explorações leiteiras holandesas, entre 2016 e 2021.
Dos registos analisados, 6.094 provinham de explorações em modo de produção biológico e 95.885 de explorações convencionais.
A informação sobre produção, genealogia e composição racial foi combinada com dados detalhados sobre as características das explorações e das dietas.
Os investigadores tiveram acesso, entre outros, à proporção de concentrado na matéria seca da dieta, à eficiência de utilização do azoto (NUE), à eficiência de utilização do fósforo (PUE), à concentração de energia líquida para lactação (NEL) e à produção média de leite por vaca da exploração.
Esta quantidade de informação permitiu analisar o ambiente de produção de forma mais precisa do que a simples distinção entre sistemas convencionais e biológicos.
O que é a interação entre genética e ambiente?
A chamada interação genótipo × ambiente (G × E) ocorre quando diferentes genótipos respondem de forma diferente quando as condições ambientais mudam.
Na produção leiteira, isto significa, por exemplo, que duas vacas podem ter potenciais genéticos diferentes quando alimentadas com uma determinada dieta, mas responder de forma diferente quando a alimentação muda.
Esta interação pode assumir duas formas principais.
Uma é o chamado efeito de escala: a ordem dos animais mantém-se aproximadamente igual, mas a diferença entre eles aumenta ou diminui conforme o ambiente.
A outra é o reordenamento genético: os animais mudam de posição no ranking. Uma vaca que apresenta o melhor desempenho num ambiente pode, neste caso, deixar de ser a melhor noutro.
É esta segunda possibilidade que tem implicações particularmente importantes para a seleção genética.
Mais concentrado, maior expressão da genética
Um dos resultados mais marcantes surgiu quando os investigadores analisaram diferentes níveis de concentrado na dieta.
Quando a dieta continha apenas 13% de concentrado na matéria seca, a herdabilidade da produção de leite foi estimada em 0,17.
Com 43% de concentrado, a estimativa subiu para 0,54.
Ou seja, a proporção da variação da produção de leite associada às diferenças genéticas entre os animais foi muito maior no ambiente com maior disponibilidade de concentrado.
A mesma tendência foi observada para a produção de gordura e proteína: a herdabilidade aumentou à medida que melhoravam determinadas características do ambiente alimentar.
Para os autores, estes resultados indicam que as vacas não conseguem expressar plenamente o seu potencial genético para produção de leite quando são alimentadas com dietas menos concentradas.
Não significa, contudo, que uma dieta com mais concentrado seja necessariamente melhor do ponto de vista económico ou ambiental. O estudo não procurou determinar a dieta ideal para uma exploração, mas sim perceber de que forma o ambiente alimentar modifica a expressão da variabilidade genética.
O que acontece em dietas mais forrageiras?
A questão é particularmente relevante à medida que os sistemas leiteiros procuram aumentar a utilização de forragens e reduzir a dependência de alimentos concentrados.
Uma vaca selecionada para elevado potencial de produção pode não conseguir manifestar esse potencial num sistema baseado numa maior proporção de forragem.
Isso não significa necessariamente que o animal seja geneticamente inferior. Pode significar que o ambiente não fornece os nutrientes necessários para que o seu potencial se manifeste.
Os resultados ajudam, assim, a explicar por que razão uma mesma genética pode apresentar níveis de produção bastante diferentes em explorações com estratégias alimentares distintas.
Não houve grande “troca de lugares” entre vacas
Apesar das diferenças na expressão do potencial genético, os investigadores encontraram pouca evidência de reordenamento genético na maioria das comparações.
As correlações genéticas entre o mesmo caráter em diferentes ambientes foram, de forma geral, próximas de 1.
Isto significa que, apesar de a diferença entre os animais poder aumentar ou diminuir conforme a dieta, os animais geneticamente superiores tendem a continuar a ser superiores.
A principal exceção apareceu quando os investigadores compararam explorações com níveis muito diferentes de produção média do efetivo.
Entre explorações com uma produção média de 5.900 e 12.400 kg de leite/vaca/ano, a correlação genética para produção de leite foi de apenas 0,52.
Para a produção de gordura foi de 0,65 e para a produção de proteína de apenas 0,26.
Estes valores sugerem que, em ambientes produtivos muito diferentes, pode existir maior probabilidade de alterações no ranking genético.
O ambiente alimentar é mais complexo do que “mais concentrado”
Uma das limitações importantes na interpretação dos resultados é que aumentar a proporção de concentrado não significa simplesmente adicionar mais concentrado à mesma dieta.
Nas explorações estudadas, dietas com maior proporção de concentrado estavam também associadas a menores proporções de erva fresca e conservada e de outros componentes da dieta.
Por isso, os autores alertam que o efeito observado não deve ser interpretado como sendo exclusivamente causado pelo concentrado.
A análise mostra, na realidade, a influência de um conjunto de alterações na estratégia alimentar.
Esta é uma distinção importante para a aplicação prática dos resultados: o estudo não conclui que “mais concentrado aumenta o potencial genético”, mas que o ambiente nutricional modifica a forma como a variabilidade genética da produção se manifesta.
Eficiência do azoto e fósforo também contam
Para além do concentrado, os investigadores analisaram a eficiência de utilização do azoto (NUE) e do fósforo (PUE), bem como a energia líquida da dieta para lactação.
Também nestes casos, a herdabilidade dos caracteres relacionados com a produção de leite, gordura e proteína aumentou com a melhoria dos indicadores ambientais.
Isto é particularmente relevante num contexto em que a seleção genética deixa de estar focada exclusivamente no volume de leite e passa a considerar também a eficiência na utilização dos nutrientes.
A combinação entre genética e eficiência alimentar poderá assumir uma importância crescente à medida que as explorações procuram produzir mais utilizando menos recursos e reduzindo as perdas de nutrientes para o ambiente.
Produção biológica versus convencional
O estudo comparou ainda explorações biológicas e convencionais.
A herdabilidade da produção de leite foi de 0,36 nas explorações biológicas e de 0,44 nas convencionais.
Em média, as explorações convencionais apresentavam maior produção de leite e utilizavam mais concentrado, silagem de milho e subprodutos, enquanto as explorações biológicas recorriam mais a erva fresca e conservada.
No entanto, os investigadores encontraram uma considerável sobreposição nas práticas alimentares entre os dois sistemas.
A proporção de concentrado variava, por exemplo, entre 1% e 54% nas explorações biológicas e entre 8,2% e 56% nas convencionais.
Isto significa que classificar uma exploração simplesmente como “biológica” ou “convencional” fornece uma informação bastante limitada sobre o seu verdadeiro ambiente alimentar.
Implicações para a seleção genética
Os resultados podem ter consequências importantes para a forma como são calculados e utilizados os valores genéticos estimados (EBV).
Os EBV são utilizados pelos produtores para selecionar reprodutores e definir os objetivos de melhoramento dos efetivos.
Se a expressão da variância genética muda significativamente conforme o ambiente alimentar, ignorar essa diferença pode conduzir a estimativas enviesadas dos valores genéticos em ambientes que se afastam da média da população.
Por exemplo, um touro selecionado com base em dados provenientes de explorações de elevada produção e dietas mais concentradas poderá não ter exatamente o mesmo desempenho relativo quando as suas filhas forem colocadas num sistema com maior utilização de forragens.
O estudo não demonstra que isso aconteça de forma generalizada, mas mostra que o ambiente alimentar deve ser considerado na interpretação dos dados de seleção genética.
O que significa para o produtor?
Para o produtor, a mensagem mais importante é que genética e alimentação não devem ser analisadas isoladamente.
Uma vaca com elevado mérito genético para produção de leite necessita de um ambiente nutricional que lhe permita expressar esse potencial.
Da mesma forma, num sistema baseado em pastagem ou com uma maior proporção de forragens, pode ser mais importante selecionar animais cujo potencial genético esteja melhor adaptado às condições específicas do sistema.
Esta abordagem poderá ganhar importância à medida que coexistem sistemas leiteiros cada vez mais diferenciados: explorações intensivas com dietas de elevada densidade energética, sistemas baseados em pastagem, produção biológica e modelos que procuram maximizar a eficiência dos nutrientes.
Selecionar para o sistema, e não apenas para a produção
Uma das principais implicações do estudo é a necessidade de pensar na seleção genética em função do sistema de produção.
A seleção para produção máxima pode ser muito eficaz quando o ambiente permite expressar esse potencial. Mas num sistema em que a alimentação, a disponibilidade de nutrientes ou outros fatores ambientais são diferentes, poderá ser igualmente importante selecionar animais capazes de manter um bom desempenho nessas condições.
Os investigadores consideram que análises futuras deverão incluir outros caracteres para além da produção de leite, permitindo avaliar de forma mais completa as consequências da interação entre genética e ambiente para os programas de seleção.
Entre esses caracteres poderão estar a fertilidade, longevidade, saúde, eficiência alimentar e resiliência.
Uma conclusão importante para a sustentabilidade
O estudo surge num momento em que a produção leiteira procura conciliar produtividade e sustentabilidade.
A redução da utilização de concentrados, o aumento da eficiência do azoto e do fósforo e uma maior utilização de recursos alimentares produzidos na própria exploração são estratégias que podem alterar significativamente o ambiente de produção.
Se essas mudanças também alteram a forma como o potencial genético se expressa, então os programas de melhoramento terão de acompanhar a transformação dos sistemas de produção.
A seleção genética do futuro poderá não procurar apenas a vaca que produz mais leite, mas a vaca que consegue produzir de forma eficiente nas condições específicas em que a exploração trabalha.
Conclusão
O estudo realizado em 973 explorações leiteiras holandesas demonstra que a alimentação influencia fortemente a expressão da variabilidade genética para a produção de leite.
A herdabilidade da produção de leite aumentou de 0,17 para 0,54 quando a proporção de concentrado passou de 13% para 43% da matéria seca da dieta. Tendências semelhantes foram observadas para a produção de gordura e proteína e para indicadores relacionados com a eficiência de utilização de nutrientes.
Apesar destas diferenças de escala, os investigadores encontraram pouca evidência de reordenamento genético entre ambientes, com exceção de algumas comparações entre explorações com níveis muito diferentes de produção média.
Para o setor leiteiro, a principal mensagem é clara: o mérito genético de um animal não pode ser totalmente separado do ambiente em que esse animal produz. À medida que os sistemas leiteiros se tornam mais diversificados e procuram maior eficiência no uso dos recursos, considerar a interação entre genética e alimentação poderá tornar-se cada vez mais importante na seleção dos animais.
Fonte
Guennoc, E.L.P., Edens, M.G.J., Gilbert, M.S., Dijkstra, J. & Bovenhuis, H. (2026). Assessing genotype by feed interactions for milk production traits in dairy cattle. Journal of Dairy Science. DOI: 10.3168/jds.2026-28650. Publicado online em 3 de julho de 2026. Artigo em acesso aberto, sob licença CC BY 4.0.
Artigo original: Journal of Dairy Science – artigo completo






