A resistência aos antimicrobianos continua a ser uma das maiores ameaças à saúde animal e humana. embora o setor pecuário tenha reduzido significativamente o uso destes medicamentos, o desafio está longe de estar resolvido.
Por George Stilwell, Médico-veterinário e Membro Coordenador do Welfare Quality Network., Faculdade de Medicina Veterinária
Recentemente fui convidado para a Cimeira do Leite organizada para comemorar os 30 anos da Lactogal. Participei num painel que abordou um importantíssimo tema da actualidade: a sustentabilidade da produção de leite na origem. Ou seja, o que precisamos de garantir hoje para que as gerações futuras possam continuar a produzir e a usufruir de produtos lácteos de qualidade? É crucial pensar, construir e manter um modelo de produção que consiga harmonizar a eficiência produtiva com a responsabilidade ambiental, o bem-estar e saúde animal e a saúde humana.
Na cimeira resolvi trazer à discussão um tópico tantas vezes abordado que ameaça ser menosprezado e esquecido – o desenvolvimento e a propagação de resistências aos antimicrobianos ou o que vulgarmente se chama “antibióticos”.
Será que estamos a dar a importância devida a este problema global? Se bem que se repitam até a exaustão campanhas e sessões de esclarecimento, que se agitem estatísticas alarmantes, que se criem novas e mais restritas regras e leis… continuamos a testemunhar abusos e um crescimento continuado das resistências. Será que não assusta a previsão de que em 2050 mais de 10 milhões de pessoas irão morrer por doenças causadas por bactérias multirresistentes? E que, no caso de animais de produção, atingirá valores astronómicos.
A razão mais provável para que o abuso e mal-uso continue apesar dos avisos, é o facto de não ser fácil comprovar no dia-a-dia a presença de resistências, nem estabelecer a correlação com o seu maior efeito – o fracasso na terapêutica. Por exemplo, quando um vitelo morre de pneumonia, temos a tendência em pensar que a mortalidade é uma inevitabilidade quando se trabalha com seres vivos. Aceita-se… em vez de se tentar perceber porque falhou o tratamento com um antimicrobiano que supostamente seria eficaz.
Há quem argumente que os antimicrobianos são essenciais e que será praticamente impossível produzir alimentos de origem animal de forma rentável sem a sua utilização. Já ouvi produtores queixarem-se que sem um acesso livre a antimicrobianos os índices de mortalidade serão incomportáveis. Se calhar é verdade… se continuarem com as mesmas más práticas. Se calhar é verdade… se os antimicrobianos forem chapéus que escondem más condições.
Não advogo a produção sem antibiótico (raised without antibiotics) que tem crescido nalguns países ou que integram as regras de certos sistemas de produção. Não tratar com um antimicrobiano um animal com uma doença infecciosa de origem bacteriana, pode ser considerado um atentado ao seu bem-estar e dignidade. Há vários estudos que mostram ricochetes negativos desta prática a nível de bem-estar animal, da salubridade do produto final e do ambiente.
Não há dúvida de que a possibilidade de uso de antimicrobianos na produção animal deve ser continuada, mas se não os usarmos com prudência, competência e ciência, arriscamo-nos a ter o seu acesso muito condicionado. O uso prudente de antibióticos nos animais de produção, nomeadamente a redução drástica da utilização daqueles que são cruciais para a medicina humana, é também uma obrigação ética. Os produtores e todos os envolvidos na produção animal, têm de ser elementos responsáveis na sociedade. A Organização Mundial da Saúde tem desenvolvido critérios para classificar os antimicrobianos de acordo com sua importância na medicina humana. Por exemplo, os antimicrobianos considerados “criticamente importantes” atendem a dois princípios: (1) o antimicrobiano ou a sua classe constitui a única terapia possível ou uma das poucas alternativas para o tratamento de infecções graves humanas, e (2) o antimicrobiano ou a sua classe é usado para o tratamento de doenças causadas por microrganismos que podem ser transmitidos através de fontes não-humanas ou doenças causadas por microrganismos que podem adquirir genes de resistência a partir de fontes não-humanas. É, portanto, essencial conhecer quais são esses antimicrobianos e evitar a todo o custo o seu uso rotineiro. Apenas um médico-veterinário está habilitado a tomar essa decisão.
Porém, o que temos de fazer, acima e primeiro do que tudo, é tornar desnecessário o uso de antimicrobianos.
Mesmo correndo o risco de estar a ser repetitivo, resolvi aproveitar este espaço para relembrar algumas boas práticas que permitem criar os nossos ruminantes, em saúde e bem-estar, sem a bengala dos antimicrobianos.
Mastites
Se bem que neste campo nos possamos orgulhar de ter reduzido muito os níveis de infecção, muito por causa da penalização por elevada contagem de células somáticas que se introduziu nos anos 90, ainda se usa e abusa muito dos antimicrobianos, quer para a prevenção quer para o tratamento. Felizmente a ciência e a tecnologia têm ajudado muito a reduzir a incidência de mastites – através da higiene na ordenha, das vacas e do ambiente; através da selecção genética, que melhorou a conformação dos úberes e tetos; através da selecção genómica que promete populações de vacas mais resistentes; e, através, temos de o admitir, de muitos anos de uso de antimicrobianos na secagem. Agora temos de continuar no caminho da selecção das vacas mais resistentes e de proporcionar as melhores condições de higiene e bem-estar, mas temos de racionalizar o uso dos antimicrobianos. Por exemplo:
4 Fazer o tratamento antimicrobiano de secagem apenas dos quartos mamários que realmente precisam, por estarem infectados. Os outros devem ser selados. É verdade que são precisos cuidados de higiene na aplicação das bisnagas, de bons registos, de monitorização e de higiene das camas, mas é essencial que a secagem selectiva passe a ser considerada rotina.
4 A Ciência tem demonstrado que alguns tipos de mastite não precisam do antimicrobiano: ou porque a bactéria já não se encontra na glândula mamária ou porque o resultado é o mesmo com e sem tratamento antibiótico. É, portanto, essencial que a competência do médico-veterinário seja sempre envolvida nos tratamentos das mastites e que se deixe de usar a técnica “chapa 5” que consiste em encharcar toda e qualquer vaca doente em antimicrobiano.
recria de vitelas de leite
A idade do animal parece relacionar-se directamente com a facilidade de se desenvolverem populações bacterianas resistentes aos antimicrobianos. Estudos indicam que animais mais jovens excretam maior número de bactérias resistentes. Não tem sido fácil estabelecer se isso é consequência de um processo biológico em que os animais mais jovens propiciam nichos mais adequados ao desenvolvimento de certas estirpes ou se resulta do facto de se usarem muito mais antimicrobianos nestes animais, tantas vezes fortemente imunodeprimidos. Esta maior necessidade muito provavelmente resulta da conjugação dos dois factores. Contudo, se o primeiro factor não é resolúvel, o segundo advém quase sempre de más práticas e/ou de condições ambientais impróprias. As fotografias 1 e 2 ilustram perfeitamente o que quero transmitir – qual das vitelas precisará, mais tarde ou mais cedo, do suporte do antimicrobiano para crescer e dar uma boa vaca (isto para não dizer que provavelmente precisará da ajuda do antimicrobiano simplesmente para sobreviver)? Foi demonstrado que a morbilidade, a mortalidade e a prevalência de estirpes multirresistentes de bactérias como E. coli ou Salmonella, são muito menores quando se garante a administração de colostro de qualidade e se proporcionam camas confortáveis. Nunca é demais sublinhar a importância dos 3 Q no maneio do colostro – Quality, Quantity and Quickly.
na engorda- outro factor de que pode depender o uso ou não de antimicrobianos é a imunodepressão causada pelo stress. Este é um factor primordial nos feed-lots. Alguns estudos têm demonstrado que factores de stress associam-se a uma menor resposta aos tratamentos e a um aumento na excreção e circulação de bactérias multirresistentes, especialmente a bacteriostáticos. Esta constatação sugere que há outros factores implicados no desenvolvimento de resistência aos antimicrobianos (más práticas -> stress -> cortisol) para além da simples utilização. Nas engordas, o transporte, as mutilações (descorna e castração) sem maneio da dor, o transporte, a constante troca de parques, más-práticas nas mangas e mesmo o medo dos tratadores, têm um efeito desencadeador da doença respiratória, devido à imunossupressão que causam. Este acumular de factores de stress e más práticas abrem caminho às bactérias e pedem cada vez maior quantidade de antimicrobianos. Tradicionalmente as empresas de medicamentos respondiam rápida e alegremente ao desafio lançando antimicrobianos cada vez mais potente. Felizmente esta foi uma tradição que não perdurou.
Finalmente, umas palavras sobre um erro muito comum na apresentação do problema do uso de antimicrobianos na produção de leite. A discussão que percorre a sociedade normalmente foca-se na seguinte questão: o leite que chega ao público tem antibiótico? Este é o grande medo dos consumidores – um inquérito nos EUA mostrou que cerca de 50% dos inquiridos acreditam que há leite com antibiótico a chegar ao mercado. Aliás, chegam a responder que estão preparados a pagar mais por “leite sem antibiótico”, o que é um completo disparate porque já paga leite sem antibiótico! Por outro lado, o produtor sabe que NÃO EXISTE leite com antibiótico, porque conhece as regras apertadas a que ele próprio está sujeito. Só que essa certeza, leva-o a desprezar ou a esquecer o verdadeiro problema – não é a presença de antimicrobiano no leite que nos deve preocupar, mas o desenvolvimento na exploração de microorganismos e/ou dos genes de resistência que depois se podem propagar nos produtos (mesmo pasteurizados), nos resíduos (estrumes e chorumes), nos animais vendidos, nos animais silvestres, nos trabalhadores etc… São fontes de factores de resistências. E são fontes que continuam a jorrar.







