
Idálio Ramos é produtor de cabras da raça Florida e desenvolve a sua atividade em Salir, no concelho de Loulé, Algarve. A exploração conta atualmente com cerca de 350 cabras adultas e 100 chibas de reposição, incluindo animais da raça Florida e cruzamentos com Saanen. As instalações dispõem de aproximadamente 2.000 m² de área coberta e a exploração agrícola ocupa cerca de 20 hectares.
A alimentação dos animais é maioritariamente adquirida no exterior, sendo os animais mantidos em regime de estabulação permanente. A exploração é assegurada por uma equipa de três pessoas.
A ligação de Idálio Ramos à pecuária começou muito cedo. Proveniente de uma família com tradição na criação de animais, recorda que a avó criava ovelhas, mas foram as cabras que despertaram o seu interesse desde a infância. Aos 13 anos adquiriu as primeiras cabras e iniciou-se na produção e comercialização de queijo, ordenhando os animais e contando com a ajuda da mãe para transformar o leite em queijo, que depois vendia localmente.
Embora nunca tenha comercializado leite, dedica-se à produção de queijo há mais de três décadas. Ao longo destes 31 anos, as cabras mantiveram-se sempre no centro da sua atividade, dando origem a um percurso marcado pela continuidade e pela dedicação à caprinicultura.
Produzir leite para transformar em queijo
O principal objetivo da exploração é a produção de leite destinado à transformação em queijo comercializado sob marca própria. Paralelamente, a exploração desenvolve também uma vertente de seleção e comercialização de genética, através da venda de animais puros da raça Florida.
Da Murciana à Florida
Ao longo do seu percurso na caprinicultura, Idálio Ramos trabalhou com diferentes tipos de animais. Nos primeiros anos, o efetivo era constituído sobretudo por cabras cruzadas. Mais tarde apostou em raças puras, tendo trabalhado inicialmente com as raças Murciana-Granadina e Florida. Com o passar do tempo, acabou por concentrar a sua atividade na raça Florida, que continua a constituir a base genética da exploração.
Qual foi a razão para decidir pela raça Florida?
O tamanho da cabra em relação à Murciana. É maior, os cabritos vendem-se mais rapidamente. A cabra produz mais leite durante mais tempo e é mais rústica que a Murciana.
Sempre teve as cabras estabuladas?
Não. No início tive cabras em pastoreio, mas chegámos à conclusão de que consumiam a mesma ração e a mesma forragem que em estabulação, produzindo apenas metade do leite.
Em termos de produção de leite, que diferenças observa entre as raças Florida e as Murciana?
Em termos de quantidade de leite, depende muito da seleção genética que vamos fazendo e também da duração das lactações. Temos cabras que conseguem manter lactações de três e até quatro anos consecutivos, continuando a apresentar boas produções ao longo desse período.
Qual é a produção normal desta raça?
Estamos com uma média de 3,3 litros de leite por cabra e dia. As 300 cabras que atualmente em ordenha estão a produzir 1000 litros de leite por dia, mas 80% são de primeira barriga.
Como varia a produção ao longo das lactações prolongadas?
No início da lactação, as cabras atingem um pico de produção. Depois, a produção estabiliza normalmente entre os 2 e os 3 litros por cabra e por dia. Do final do verão até janeiro observa-se habitualmente uma ligeira quebra. No entanto, quando chega janeiro, a produção volta a subir e pode atingir os 4 a 5 litros por cabra e por dia.
Em termos de gordura e proteína, quais são os valores normalmente observados na raça Florida?
Os teores de gordura situam-se normalmente entre 3,5% e 4,0%, enquanto a proteína varia entre 3,3% e 3,7%. Neste momento, o efetivo apresenta valores superiores à média, com 5,96% de gordura e 3,87% de proteína.
Onde adquiriu o rebanho de Florida?
Em Espanha. A adaptação ao clima foi muito tranquila, tanto para as Florida como para as Saanen.
Como são as Florida em termos de temperamento?
São muito ariscas na ordenha. No estábulo são muito dóceis e aproximam-
-se facilmente das pessoas, mas durante a ordenha tornam-se bastante nervosas, mais do que as Saanen.
Que idade têm as cabras mais velhas da exploração?
A cabra mais velha nasceu no final de 2014. Ainda esta semana pariu duas chibas e continua a apresentar uma boa produção de leite. Tenho vários animais com idades semelhantes, o que demonstra a grande longevidade desta raça.
Na maioria dos casos, o fator que limita a permanência destes animais na exploração não é a condição corporal, mas sim o desgaste da dentição. Muitas mantêm um excelente aspeto físico e nem aparentam a idade que têm.
Porque introduziu a genética Saanen no seu efetivo?
Fizemo-lo há cerca de cinco anos. Procurávamos mais docilidade, lactações ainda mais prolongadas e úberes melhor conformados.
Qual é a percentagem de animais cruzados no efetivo?
Cerca de 30%.
Pretende continuar a cruzar todo o efetivo ou manter um núcleo puro de Florida?
Ainda não cheguei a uma conclusão.
Que diferenças tem observado entre as cabras Florida puras e os animais cruzados?
A principal diferença está relacionada com a facilidade de ordenha. As cruzadas tendem a apresentar úberes mais bem conformados e tetos mais corretamente orientados, o que facilita o processo. Além disso, parecem-me animais um pouco mais dóceis.
Ao nível da produção de leite e da sua qualidade, os resultados são muito semelhantes entre cruzadas e Florida puras.
Há quanto tempo estão a cruzar?
Há cerca de cinco anos. Algumas dessas cruzadas têm atualmente quatro anos e continuam em lactação há três anos, mantendo uma boa produção.
O que o surpreendeu mais na raça Florida?
Comprei 150 cabras de uma vez, e o que mais me surpreendeu foi ter que aumentar a altura das vedações. As que tinha para as Murcianas deixaram de servir porque as Florida saltavam facilmente para fora dos parques.
Qual é a alimentação do efetivo em produção?
Tentamos manter tudo o mais simples possível. Atualmente fornecemos apenas palha e Caprikomplet.
Qual é o maneio reprodutivo?
Geralmente, as chibas são cobertas aos sete meses de idade para parirem aos 12 meses.
Qual é a estratégia reprodutiva e de seleção genética?
Utilizo apenas monta natural. Atualmente estamos a reorganizar os lotes para conseguir distribuir os partos ao longo do ano e evitar que a reposição seja feita a partir das cabras menos produtivas.
A exploração está dividida em quatro lotes de produção. Qual é atualmente o critério de separação dos animais?
Neste momento, a separação é feita sobretudo com base na genética, distinguindo cabras Florida puras de animais cruzados.
Os lotes não são organizados de acordo com o nível de produção?
Para já, não. Os animais com diferentes níveis produtivos encontram-se misturados. No futuro, pretendo separar as cabras menos produtivas das melhores produtoras.
Quais são os principais critérios utilizados para a seleção e refugo dos animais?
A produção de leite é um dos principais critérios. Se uma cabra apresentar uma produção insuficiente logo após o primeiro parto, normalmente é refugada. Outro aspeto muito importante é a conformação do úbere, uma vez que procuramos animais que permitam uma ordenha rápida e eficiente.
Quanto tempo demora a ordenha e qual é a rotina diária da exploração?
Dispomos de uma sala de ordenha com 24 lugares e 12 pontos de ordenha. Atualmente, duas pessoas conseguem ordenhar cerca de 300 cabras em aproximadamente uma hora e dez minutos.
Realizamos duas ordenhas por dia: às 6h30 da manhã e às 18h30.
Qual é o destino dos cabritos?
Os cabritos saem com média de 10 kg entre 25-30 dias de vida, tanto os da raça Florida como os cruzados.
Quais são os indicadores que acompanha com mais atenção?
O primeiro indicador é a quantidade diária de leite no tanque. Além disso, acompanho de perto a ocorrência de diarreias e mamites, situações que exigem uma resposta rápida.
O que o levou a apostar na produção de queijo?
Numa fase inicial, a produção de queijo surgiu como uma forma de gerar rendimento a partir da criação de cabras. Mais tarde, perante a reduzida oferta de queijarias com dimensão no Algarve, optámos por desenvolver a nossa própria queijaria.
Compram leite fora?
Já comprámos muito. Atualmente não compramos.
Que tipo de queijo produzem na queijaria?
Produzimos essencialmente queijo fresco e algum seco, que comercializamos através dos canais tradicionais. Trata-se de um queijo típico do Algarve, elaborado artesanalmente com leite, cardo e sal.
Atualmente utilizamos cerca de 5.000 litros por semana. O excedente de leite é vendido a outras queijarias.

Como imagina a exploração daqui a cinco anos?
Algumas mudanças existirão certamente, porque estou sempre à procura de formas de modernizar a exploração. No entanto, gosto de soluções simples.
Se tudo correr como planeado, continuarei a produzir apenas um tipo de queijo e poderei aumentar o efetivo para cerca de 400 cabras. Ao nível da exploração, gostaria de instalar uma vagoneta automática para distribuição de alimento, melhorando a eficiência do trabalho diário.






