
O setor da bovinicultura de carne em Portugal está a mudar. Os produtores estão mais informados, os compradores são mais seletivos, e a genética deixou de ser um detalhe para se tornar uma ferramenta de gestão.
João Diogo Ferreira, gerente da AGRIANGUS, tem estado no centro desta transformação. Após a realização do 6º Leilão Anual da Agriangus, em abril passado, na Asseiceira, falou à Ruminantes sobre o que mudou, o que ainda falta mudar e por que continua a apostar num modelo assente em transparência e rigor técnico.
O que distingue este leilão dentro do panorama da genética Angus em Portugal?
O Leilão AGRIANGUS foi o primeiro leilão privado de bovinos realizado em Portugal e continua a distinguir-se por uma característica fundamental: a profundidade da informação disponibilizada sobre cada animal.
Os animais apresentados não são apenas avaliados através dos parâmetros tradicionais de crescimento. São também caracterizados ao nível da eficiência alimentar, qualidade da carne e genómica, integrando um programa de seleção onde não só os animais candidatos ao leilão, mas também as suas mães e a generalidade do efetivo da exploração, são avaliados e registados de forma sistemática.
Esta abordagem permite ao comprador tomar decisões com um grau de confiança muito superior ao habitual, reduzindo a incerteza associada ao investimento genético.
Outro aspeto diferenciador é a relação qualidade/preço. Muitos dos animais disponibilizados acabam por ser comercializados a valores perfeitamente enquadrados no mercado nacional, permitindo que criadores de diferentes dimensões tenham acesso a genética de elevado mérito sem que isso represente um investimento incomportável.
Para além dos dados objetivos, damos enorme importância a características funcionais que muitas vezes não aparecem nos catálogos, mas que têm um impacto determinante na rentabilidade do sistema produtivo. A qualidade dos aprumos, a solidez das unhas, a capacidade locomotora, a docilidade e a adaptação às condições de exploração são aspetos que analisamos cuidadosamente.
Acima de tudo, procuramos que o evento seja um exercício de transparência. O nosso objetivo nunca foi vender apenas animais, mas disponibilizar informação que permita aos produtores fazer escolhas conscientes e sustentadas.
Em que momento percebeu que o evento tinha ultrapassado a dimensão comercial e se tinha tornado uma referência no setor?
Curiosamente, nunca existiu uma estratégia deliberada para transformar o evento numa referência. O nosso foco sempre esteve centrado em acrescentar valor ao setor e em profissionalizar ao máximo cada atividade que desenvolvemos diariamente.
Acreditamos que foi precisamente essa postura de rigor técnico, aliada à proximidade com os clientes e à transparência dos processos, que permitiu construir relações de confiança duradouras. Ao longo dos anos, fomos assistindo ao regresso de compradores, à recomendação entre produtores e ao crescimento consistente da participação no evento.
O leilão acabou por ganhar dimensão porque reflete aquilo que procuramos fazer durante todo o ano: selecionar melhor, medir mais, comunicar com transparência e disponibilizar informação útil ao mercado.
Ainda assim, sentimos que o projeto está longe de atingir o potencial que imaginamos para ele. A ambição que temos para o evento é significativamente superior à realidade atual e acreditamos que, nos próximos cinco anos, poderá evoluir para um patamar muito mais relevante, não apenas como leilão mas também como ponto de encontro e partilha de conhecimento para o setor da bovinicultura de carne.
Até que ponto estes leilões influenciam hoje as decisões estratégicas dos criadores nacionais?
Infelizmente, a realidade demonstra que muitos produtores ainda não trabalham com uma estratégia genética claramente definida. Esse continua a ser um dos principais desafios da pecuária de carne nacional.
Apesar disso, verificamos que existe um número crescente de criadores que utiliza a informação disponibilizada para orientar decisões de seleção e investimento. Os leilões podem funcionar como uma importante ferramenta de transferência de conhecimento, porque permitem demonstrar, de forma prática, o impacto que determinadas características genéticas podem ter na rentabilidade da exploração.
Hoje é possível encontrar animais direcionados para objetivos muito distintos: produção de fêmeas de reposição, melhoria da fertilidade, facilidade de parto, eficiência alimentar, crescimento ou qualidade de carne. Quanto mais claros forem os objetivos de cada exploração, maior será a capacidade de utilizar a genética como ferramenta de gestão.
O verdadeiro desafio passa por evoluir de uma lógica de compra baseada apenas na aparência para uma lógica de investimento baseada em dados e objetivos produtivos concretos.
Que características estão atualmente a definir o novo padrão Angus procurado pelos produtores?
Uma das evoluções mais positivas dos últimos anos é o facto de a maioria dos produtores já ter compreendido que tamanho não é sinónimo de rentabilidade.
O novo padrão Angus procurado atualmente assenta cada vez mais num animal moderado, funcional e eficiente. Procura-se um bovino com facilidade de parto, bom crescimento, elevada fertilidade e, sobretudo, capacidade para manter a condição corporal ao longo do ano nas condições ambientais do nosso país.
Esta capacidade de adaptação é decisiva porque influencia diretamente a reprodução. Uma vaca que mantém condição corporal reproduz-se melhor, emprenha mais cedo, desmama bezerros mais pesados e permanece mais anos produtiva na exploração.
Além disso, estas características tendem a ser transmitidas à descendência, permitindo criar linhas maternas mais precoces, férteis e economicamente sustentáveis.
No fundo, o produtor moderno procura cada vez mais um animal equilibrado, capaz de transformar recursos limitados em carne.
Durante anos, a seleção genética privilegiou o crescimento e o tamanho. Esse paradigma está a mudar?
Sem dúvida. Durante muitos anos existiu a tentação de selecionar animais apenas com base em crescimento ou tamanho. Hoje sabemos que a produtividade só é sustentável quando existe adaptação ao meio.
Os animais precisam de se reproduzir antes de produzirem. E para se reproduzirem necessitam de manter uma condição corporal adequada e de responder positivamente aos desafios ambientais e nutricionais da exploração.
Felizmente, existe uma consciência crescente de que os extremos raramente funcionam nas condições portuguesas. O equilíbrio entre crescimento, fertilidade, eficiência alimentar e adaptação tornou-
-se um dos principais objetivos dos programas de seleção mais modernos.
Como mudou o perfil do comprador de Angus na última década?
O perfil do comprador evoluiu significativamente.
Numa fase inicial, impulsionada em grande parte pela procura da grande distribuição, bastava muitas vezes adquirir um animal com pedigree Angus para responder às exigências do mercado.
Hoje a realidade é diferente. Os produtores estão mais informados, mais exigentes e possuem uma literacia genética muito superior. Procuram compreender os dados disponíveis, analisam avaliações genéticas e procuram animais alinhados com objetivos concretos.
Também é justo reconhecer que este progresso não resulta apenas do trabalho da AGRIANGUS. Existem vários criadores nacionais que têm contribuído para elevar o nível da raça em Portugal.
Atualmente, a qualidade média dos Angus portugueses é bastante elevada e isso permitiu aos compradores tornarem-se mais seletivos. Hoje já não procuram apenas Angus.
O apetite pela carne premium alterou a forma como os criadores encaram os investimentos em genética?
Infelizmente, ainda não de forma significativa.
O principal motivo é simples: Portugal continua sem dispor de um sistema de classificação qualitativa das carcaças que remunere efetivamente a qualidade da carne produzida.
Enquanto os produtores forem pagos essencialmente pelos quilos comercializados, existirá pouco incentivo económico para investir especificamente em características relacionadas com qualidade da carne.
A implementação de um sistema de classificação moderno permitiria valorizar atributos como marmoreio, tenrura e qualidade final do produto. Isso beneficiaria toda a cadeia de valor: produtores, indústria, distribuição e consumidores.
Outro aspeto importante é que a carne premium continua muitas vezes a ser associada exclusivamente à raça. Discordo dessa abordagem. A raça Angus aumenta a probabilidade de obter carne de elevada qualidade, mas não constitui uma garantia absoluta.
A valorização deveria incidir sobre a qualidade efetiva da carcaça e não apenas sobre a raça do animal. Só assim será possível recompensar verdadeiramente quem produz melhor.
Em que medida os produtores portugueses de carne estão hoje a tomar decisões mais baseadas em dados do que há dez anos?
Existe uma evolução positiva, embora gradual.
Há alguns anos, uma parte significativa das explorações nem sequer realizava pesagens regulares. Atualmente, cada vez mais produtores recolhem dados, monitorizam resultados e tomam decisões com base em indicadores objetivos.
Observa-se uma preocupação crescente com eficiência produtiva, custos de produção e desempenho reprodutivo, o que representa um avanço importante para o setor.
Esta profissionalização é particularmente evidente nos criadores de linha pura, onde a pressão para medir, comparar e selecionar é maior. No cruzamento industrial o processo é mais lento, mas também se verificam sinais claros de evolução.
O mercado português reconhece valor acrescentado na genética Angus?
A resposta é simultaneamente sim e não.
No que diz respeito à qualidade da carne, ainda não existe um reconhecimento pleno, precisamente porque falta um sistema que remunere objetivamente essa qualidade.
Contudo, existem áreas onde o valor da genética Angus é amplamente reconhecido. A facilidade de parto, a fertilidade, a docilidade, a capacidade maternal e a qualidade das fêmeas de reposição são atributos valorizados por um número crescente de produtores.
Quem utiliza Angus em cruzamentos sabe que consegue obter vacas funcionais, precoces e extremamente eficientes do ponto de vista reprodutivo. Também reconhece a redução dos problemas associados aos partos e a melhoria global da uniformidade dos lotes.
Por isso, embora ainda exista caminho a percorrer na valorização da qualidade da carne, a raça Angus já conquistou um espaço muito sólido como ferramenta de melhoria produtiva e reprodutiva.
Que desafios enfrentará a raça Angus em Portugal nos próximos anos?
O maior desafio continuará a ser a valorização objetiva da qualidade da carne, através da implementação de um sistema moderno de classificação qualitativa das carcaças.
Sem essa ferramenta, será difícil criar incentivos económicos suficientemente fortes para acelerar o investimento em genética direcionada para a qualidade.
Outro desafio importante será a utilização crescente de vacas Angus puras como base maternal para programas de cruzamento industrial.
Do ponto de vista técnico, esta abordagem permitiria explorar ao máximo as qualidades maternais, a fertilidade, a eficiência e a capacidade de adaptação da raça, utilizando posteriormente outras linhas genéticas para responder a objetivos específicos de mercado.
Contudo, o elevado valor das fêmeas Angus continua a limitar esta expansão.
Ainda assim, estamos otimistas. A evolução da seleção genética, a crescente profissionalização dos produtores e a procura por sistemas mais eficientes apontam para um futuro muito promissor para a raça Angus em Portugal.
O desafio passa agora por garantir que o mercado reconhece e remunera adequadamente o valor que essa genética é capaz de gerar ao longo de toda a cadeia produtiva.






